Era uma vez um menino chamado Lucas, que tinha oito anos e gostava muito de observar o céu antes de dormir.
Todas as noites, ele olhava para as estrelas pela janela e imaginava que, bem lá no alto, existiam muitos Espíritos amigos cuidando dos filhos de Deus.
Certa noite, depois de ouvir uma história sobre anjos e demônios, Lucas ficou pensativo.
— Mamãe, os anjos são muito bons e os demônios são muito maus?
A mãe sorriu e respondeu:
— Na Doutrina Espírita aprendemos que todos somos Espíritos criados por Deus para aprender e evoluir. Os chamados anjos são Espíritos que já alcançaram grande progresso no caminho do bem. E aqueles que muitas vezes são chamados de demônios são Espíritos que ainda não aprenderam a amar e a fazer o bem como poderiam. Mas nenhum filho de Deus está condenado a ser mau para sempre.
Lucas arregalou os olhos.
— Então um Espírito que faz coisas ruins pode aprender a fazer coisas boas?
— Pode, sim. Todos nós podemos aprender. Deus é Pai de todos.
Naquela noite, Lucas se deitou pensando nessas palavras.
Quando estava quase dormindo, percebeu uma suave claridade perto de sua cama. Não era uma luz forte, mas uma luz tranquila, que parecia aquecer seu coração.
Diante dele estava seu anjo da guarda.
Lucas não sentiu medo. Pelo contrário, sentiu uma grande paz.
— Você é meu anjo da guarda? — perguntou.
— Sou um Espírito amigo que procura ajudá-lo em sua caminhada. Estou ao seu lado para inspirá-lo ao bem, mas as escolhas são suas.
Lucas ficou curioso.
— Você pode me impedir de fazer alguma coisa errada?
— Posso aconselhá-lo e inspirá-lo, mas não posso escolher por você. Deus nos deu o livre-arbítrio para aprendermos com nossas escolhas.
Nesse momento, Lucas ouviu uma voz diferente.
— Não precisa ouvir esse anjo! Faça o que quiser! Pense somente em você!
Lucas olhou para o outro lado do quarto. Havia ali um Espírito de aparência triste e expressão contrariada.
O menino se assustou.
— Quem é ele?
Seu anjo da guarda respondeu serenamente:
— É um Espírito que ainda não encontrou a alegria de fazer o bem. Ele tenta influenciá-lo porque também precisa aprender.
O Espírito se aproximou.
— Se você quiser, pode ser egoísta. Pode responder mal quando alguém contrariá-lo. Pode guardar raiva. Pode pensar apenas em você!
Lucas ficou confuso.
Então seu anjo da guarda perguntou:
— E o que você acha que aconteceria se escolhesse esse caminho?
Lucas pensou um pouco.
— Acho que eu deixaria outras pessoas tristes... e também ficaria triste.
— Exatamente — respondeu o anjo. — O mal muitas vezes parece fácil no começo, mas deixa sofrimento no coração. O bem pode exigir esforço, paciência e coragem, mas traz paz.
Lucas olhou para o Espírito triste.
— Você também pode aprender a fazer o bem?
O Espírito ficou em silêncio.
Ninguém havia feito aquela pergunta a ele.
Depois de alguns instantes, respondeu:
— Eu não sei...
Lucas então falou:
— Minha mãe disse que todos podem aprender.
O Espírito abaixou a cabeça.
— Talvez eu tenha esquecido disso.
O anjo da guarda aproximou-se dele.
— Nunca é tarde para começar.
Na manhã seguinte, Lucas acordou lembrando-se do sonho.
Na escola, encontrou seu colega Pedro sentado sozinho no banco do pátio. Alguns meninos estavam rindo porque ele havia derrubado seus lápis.
Lucas quase continuou andando.
Mas lembrou-se da conversa da noite anterior.
Respirou fundo, aproximou-se de Pedro e ajudou-o a recolher os lápis.
— Não fique triste. Eu posso ajudar você.
Pedro sorriu.
— Obrigado, Lucas.
Mais tarde, Lucas percebeu que estava prestes a responder de forma grosseira à professora porque não havia gostado de uma correção.
Por um instante, lembrou-se daquela voz dizendo:
“Faça o que quiser!”
Mas também se lembrou da voz serena do seu anjo:
“Você pode escolher.”
Lucas respirou fundo e respondeu:
— Tudo bem, professora. Vou tentar fazer novamente.
Naquele momento, sentiu uma alegria diferente.
Ele percebeu que seu anjo da guarda não fazia as escolhas por ele.
Ele apenas o ajudava a enxergar o caminho do bem.
À noite, antes de dormir, Lucas olhou novamente para as estrelas.
— Obrigado, meu amigo — disse baixinho.
E sentiu no coração uma doce inspiração:
“Continue escolhendo o bem.”
Lucas fechou os olhos.
Naquela noite, compreendeu algo muito importante:
Os anjos não são seres criados diferentes de nós. São Espíritos que caminharam muito mais no caminho do amor e da sabedoria.
E aqueles que ainda praticam o mal não são filhos perdidos de Deus. São irmãos que ainda precisam aprender.
O bem é uma escolha que podemos fazer todos os dias.
E cada pequena escolha de amor, perdão, amizade, honestidade e caridade é como uma pequena luz que acendemos dentro de nós.
Porque, no caminho de Deus, ninguém precisa permanecer na escuridão para sempre.
Todos podemos aprender a brilhar.
Carlos Pereira - O Manancialzinho











